A crise nas fábricas de maquinário pesado gerou um efeito colateral inesperado no campo brasileiro. Enquanto as concessionárias amargam o segundo ano consecutivo de retração nas vendas de equipamentos zero quilômetro, o comércio de máquinas agrícolas usadas experimenta uma expansão acelerada em plataformas digitais e leilões especializados.

Dados da Sold Leilões indicam que a oferta de máquinas e implementos agrícolas usados subiu 45% entre janeiro e agosto de 2026. No mesmo intervalo, a procura pela categoria agro saltou 83%, a base de compradores ativos expandiu 60% e o valor geral de vendas transacionado avançou para R$ 52,8 milhões.

O fenômeno contrasta fortemente com o balanço da indústria. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), o faturamento com máquinas agrícolas novas despencou 22,4% no acumulado até agosto, totalizando R$ 36,3 bilhões. Apenas no mês de agosto, as entregas de tratores para o usuário final caíram 25,5%, e as de colheitadeiras tombaram 43,1%.

Grandes grupos renovam frotas e abastecem o mercado

A oferta de equipamentos seminovos é impulsionada pela reestruturação de grandes conglomerados agroindustriais. Companhias como Amaggi, Atvos, BP e Louis Dreyfus Company (LDC) passaram a colocar frotas inteiras no mercado secundário.

Esse movimento coincide com um aprimoramento na gestão patrimonial do agronegócio. Grandes grupos adotaram programas rigorosos de telemetria e manutenção preventiva, permitindo que colheitadeiras, plantadeiras e tratores cheguem ao mercado de usados com histórico mecânico documentado e alta confiabilidade técnica.

Descontos de até 60% e cuidados na avaliação

Para o produtor rural, o apelo financeiro tem sido decisivo. Equipamentos seminovos ou unidades que exigem revisões simples chegam a ser arrematados com descontos de 40% a 60% em comparação ao preço de uma máquina nova de mesma especificação.

Especialistas do setor ressaltam, no entanto, que o preço de compra exige cautela adicional:

  • A precificação de máquinas agrícolas usadas depende estritamente do horímetro de motor e rotor;
  • Devem ser computados custos de frete logístico interestadual e substituição de peças de desgaste;
  • O histórico de revisões em concessionárias credenciadas é a principal garantia contra surpresas na colheita;
  • A presença de laudos técnicos periciais independentes agrega valor imediato na hora da revenda e facilita a obtenção de seguro patrimonial.

Além das plataformas virtuais, o mercado tradicional de balcão e os leilões presenciais no interior de estados como Mato Grosso, Paraná e Goiás também têm registrado liquidez elevada para lotes de implementos pesados.

Quem está comprando no mercado secundário

Mais de 60% dos compradores de máquinas agrícolas usadas são pessoas físicas, predominantemente pequenos e médios produtores rurais que buscam modernizar suas lavouras sem assumir o custo financeiro proibitivo dos financiamentos bancários atuais.

A abrangência é nacional: entre 30% e 40% dos negócios envolvem compradores sediados em estados diferentes daquele onde o maquinário está estocado, atraindo inclusive interessados de países vizinhos como Argentina, Chile e Paraguai. Em um ciclo marcado por juros restritivos e margens estreitas nas safras de grãos, a compra de máquinas usadas consolidou-se como ferramenta estratégica de sobrevivência financeira no campo.

Fonte: Construa Negócios