O otimismo com a economia nacional sofreu um ajuste. Em seu mais recente Boletim Macrofiscal, a Secretaria de Política Econômica (SPE) desenhou um cenário de maior cautela, apontando que o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil avançará em um ritmo inferior ao que se imaginava inicialmente para este ano.

A projeção de crescimento, que antes estava estacionada em 2,3%, foi podada para exatos 2%. O impacto desse recálculo não se limita ao ano vigente e já respinga nas expectativas para 2027, cujo horizonte de avanço recuou para 2,3%.

Juros travam a engrenagem

A raiz dessa freada econômica atende por uma velha conhecida: a taxa Selic. A manutenção do custo do crédito em patamares restritivos vem cobrando a fatura de setores fundamentais. A indústria e a prestação de serviços foram os mais penalizados na revisão oficial.

O segmento de serviços viu sua perspectiva desidratar de 2,4% para 1,8%. Já a atividade industrial teve seu fôlego reduzido para 1,7%. A única exceção positiva nesse mar de revisões de baixa foi a agricultura. Puxado pelas safras, o agronegócio saltou de uma previsão de 1,8% para sólidos 2,8% de crescimento. Mesmo assim, a força no campo não bastou para sustentar a projeção global do país.

O peso da comida e o fator El Niño

Se o ritmo da economia diminuiu, a inflação trouxe um respiro parcial. O índice que mede a evolução dos preços (IPCA) deve fechar 2026 em 4,9%, ligeiramente abaixo da estimativa anterior, graças ao barateamento da comida nas prateleiras dos supermercados até o meio do ano. Contudo, o governo alerta que o alívio não é absoluto, já que a marca segue furando o teto tolerado pela meta do Banco Central.

A verdadeira dor de cabeça, entretanto, está sendo transferida para o próximo ano. A projeção inflacionária de 2027 engatou marcha a ré e subiu para 3,8%. O principal vilão no radar do Ministério da Fazenda é a ameaça de um fenômeno El Niño com intensidade superior ao normal. Caso se confirme, o choque climático tem poder de destruição sobre as lavouras de grãos, o que em um efeito dominó encareceria a ração animal, as carnes e a comida na mesa da população.

No curto prazo, a equipe econômica ainda aposta que os cortes gradativos nos juros comecem a desatar o nó do crédito, estimulando as vendas, as construtoras e a indústria pesada — justamente os motores que hoje operam com o freio de mão puxado.

Fonte: Construa Negócios