O consumo de materiais de construção por construtoras e incorporadoras iniciou 2026 em patamar superior ao registrado nos últimos anos, indicando um ciclo mais aquecido para o setor. Nos dois primeiros meses do ano, tanto os insumos básicos quanto os de acabamento apresentaram alta expressiva na comparação com 2024 e 2025, reforçando a leitura de um mercado imobiliário resiliente mesmo diante de juros elevados e crédito restrito.
Insumos básicos e de acabamento superam patamares históricos
Segundo levantamento do Ecossistema Sienge em parceria com a Abramat, o consumo de materiais de base — como cimento, areia, blocos e aço — atingiu média de 126 pontos no bimestre, contra 102 pontos em 2025 e 116,5 em 2024. Já os materiais de acabamento, incluindo tintas e revestimentos, alcançaram 176 pontos, significativamente acima dos 114,5 registrados no ano anterior.
O indicador utiliza janeiro de 2023 como base (100 pontos) e acompanha a evolução das compras a partir de milhões de notas fiscais emitidas pelo setor.
Acabamento em alta indica maturação do ciclo imobiliário
O desempenho mais robusto veio dos materiais de acabamento, que se mantêm em patamar elevado mesmo após o pico observado em 2025. Para Gabriela Torres, gerente de inteligência estratégica do Sienge, o resultado combina fatores sazonais com decisões estratégicas das empresas.
“Mesmo com a desaceleração típica de início de ano, o consumo de 2026 ficou acima do registrado nos mesmos meses de 2025, 2024 e 2023”, afirmou. Em janeiro, o indicador marcou 130 pontos para materiais de base e 174 para acabamento. Em fevereiro, os números foram de 122 e 178, respectivamente, consolidando um início de ano acima da média histórica.
O nível elevado nos materiais de acabamento indica que obras iniciadas em ciclos anteriores estão chegando à fase final. “É mais um sinal de maturação do ciclo do que de novos começos”, explicou Torres.
Mercado imobiliário sustenta demanda com recordes em lançamentos
O avanço no consumo acompanha o desempenho recente do mercado imobiliário. Dados da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) mostram que 2025 encerrou com 453 mil unidades lançadas, alta de 10,6% em relação ao ano anterior. As vendas também se mantiveram em patamar elevado, acima de 100 mil unidades, mesmo com a taxa básica de juros em níveis restritivos.
Na prática, o aumento no consumo de materiais indica que obras seguem em ritmo ativo e que novos projetos continuam saindo do papel. No caso dos insumos básicos, o movimento sugere início ou retomada de construções. “Materiais de base estão ligados às primeiras etapas da obra. Quando esse consumo cresce, indica novas construções começando ou retomadas relevantes”, destacou Torres.
Queda de juros deve reforçar o movimento gradualmente
Com o início do ciclo de queda de juros, a tendência é de fortalecimento gradual desse cenário. A redução do custo de capital tende a destravar novos projetos, ainda que o impacto nas obras ocorra com defasagem. “A queda de juros melhora as condições de investimento e, ao longo do tempo, se traduz em aumento do consumo de materiais. Esse movimento não é imediato”, pontuou a gerente do Sienge.
Segundo ela, o aumento do consumo não significa necessariamente elevação de custos. Os preços seguem dinâmicas próprias, influenciados por fatores como câmbio e mercado internacional de commodities.
Industrialização e sustentabilidade devem ganhar espaço em 2026
Para Paulo Engler, presidente da Abramat, 2026 deve marcar uma mudança na composição do consumo. A industrialização e a adoção de soluções sustentáveis devem ganhar relevância ao longo do ano, com a projeção de que materiais de acabamento ultrapassem 30% de participação nas compras totais — refletindo um setor cada vez mais orientado à eficiência e à padronização.
“O consumo de materiais é um bom termômetro da atividade da construção, desde que analisado como tendência”, ressaltou Torres. “Quando cresce de forma consistente, indica aumento no volume de obras — seja em quantidade de projetos ou no porte das construções.”